Wednesday, 3 February 2010
Friday, 29 January 2010
[35] Alvorada
O cigano abre os olhos e nada vê senão sangue suor e trapos - pelos vistos o festim foi real - pensou. Olhou à sua volta e confirmou que todos os colegas de viagem estão presentes, alguns ainda inconscientes e outros a acordar. A cabeça doía-lhe, na boca residia um sabor sem alma misturado com ressaca talvez devido à carne do monstro que comeram avidamente.
Javier também estava deitado. Abriu os olhos e depois de assim permanecer meia hora levantou-se a custo e arrastou-se por ali sem direcção, apenas para mostrar ao destino que se mantinha vivo, tal um bêbado cambaleante tentando não dar parte fraca.
Assim todos foram acordando, uns nus outros esfarrapados. Proscritos, sentiam-se agora expulsos de um paraíso obscuro não sabendo à partida se aquele seu estado se devia a um devaneio sexual se a uma batalha contra quatrocentas bruxas.
Hora de levantar, olharam de volta para os destroços da festa.
"O que restará da besta?" "Haverá ossos por aí ou até esses nós roemos?"
Deambularam por ali à procura dos rastos e restos do evento, nem uma presa ensanguentada do monstro sobrou, apenas algumas peças de roupa espalhadas e, espera aí, o que é aquilo ali à frente?
É apenas um trapo rasgado e ensanguentado com um número estampado... 21...
O porco dos túneis que antes derrotaram, esquartejaram e comeram não era senão o camisola 21, esse defesa franzino de um clube extinto de futebol, depois companheiro e finalmente ex-companheiro destes canibais dos túneis. O seu nome era Darrel Bubb.
Saturday, 23 January 2010
Wednesday, 13 January 2010
[34'] - Ou cena [34] na perspectiva da Manu
Wednesday, 30 December 2009
Thursday, 15 October 2009
[33] A aparição do porco dos túneis
Foi então que surgiu uma nova figura na entrada da galeria, movimentando-se rapidamente na direcção do grupo. No meio daquele torpor, uma descarga de adrenalina produz um efeito brutal nas sensações dos convivas. Ao ver a criatura a aproximar-se desenvolveu-se neles um sentimento de fúria e agressividade.
"É o porco dos túneis" depararam-se com um ser com metade do seu tamanho e com uma carapaça estranha de onde sobressaiam uns dentes ensanguentados.
"Está a dizer qualquer coisa"
"Não. Aquilo são grunhidos. Aquela besta vai atacar-nos"
"Ao contrário dos seres esvoaçantes, este aqui não parece nada amistoso."
Alterado, o moço das tendas pegou numa pedra e avançou a correr na direcção da criatura. Os outros olhavam-no com um terror alucinado. Estes correram atrás dele. Com o calhau seguro nas duas mãos saltou para cima da criatura desferindo um golpe na cabeça da criatura, rebolando depois para a sua retaguarda. A besta caiu para o lado soltando um grunhido estridente. Contudo, restabeleceu-se num ápice e, cambaleando mas decidida continuou a corrida agora na direcção dos outros elementos do grupo, deixando para trás o moço das tendas.
Os outros lançaram-se para cima em grupo, o cigano sofreu o primeiro impacto da besta caindo inconsciente. Os restantes conseguiram imobilizar a besta a muito custo, agora com a ajuda do moço das tendas que desferia golpes na cabeça uivando com uma raiva assassina.
A criatura horrenda está agora aprisionada por um grupo de corpos humanos desprovidos de todo o seu córtex cerebral, outras criaturas horrendas que se batem por uma presa com os seus instintos mais primordiais, debatendo-se pelo último fôlego daquele ser dos túneis.
Puxa-lhe pela crina
Corta as pinças à centopeia
Poe-lhe uma pedra em cima
Mata a bicha que está bem cheia
Morde-lhe a perna fina
Corta a língua, fura a traqueia
Que ela estrebucha ainda
Se ela assopra cospe-lhe à beira
Dá-lhe c'os pés à bruta
Ninguém topa que é cuspideira
Salta-lhe p'rá garupa
Tanto cavas a cova funda
Que há-de acabar a bicha
Poe-lhe a terra sobre a corcunda
P'ra nao se ver a crista (*)
"Matámos o porco dos túneis!" Berrou Catarina a tremer de emoção. A adrenalina da acção tornou-os ainda mais alterados.
"Que fazemos com ela?" Perguntou Javier.
"Façamos uma fogueira e assemo-lo", respondeu num tom bíblico o moço das tendas.
"Que se dê inicio ao festim!"
(*) Ailé Ailé, José Afonso
Wednesday, 7 October 2009
Sunday, 27 September 2009
[32] A corrida
a place where ghosts reside
to whisper into the ear of travellers
& interest them in their fate" *
Os cruzamentos são medonhos, principalmente agora, quando o objectivo é encontrar alguém que vai lá à frente e não se sabe por onde seguiu.
(*): Jim Morrison, Wilderness
Monday, 21 September 2009
Monday, 31 August 2009
[31] O Tambor rotativo
Javier por exemplo desistiu da sua vidinha, essa moléstia precisa e mecanicista, sem arte, sem ar e sem tempo para a arte e para o ar, por se sentir equivocado com os propósitos para os quais foi formado e formatado. Só tempo para a vidinha, um chão cheio de coisas novas e velhas que prendem tudo o que lá passa.
Há pessoas que se conformam com isto aliás, vivem convencidas de que a sua luta vale alguma coisa não passando contudo de uma corrida num tambor rotativo ou seja, vivem como ratos numa gaiola alimentando-se, correndo na grande roda e cagando tudo à volta, e levando com a sua própria merda em cima quando esta e o seu dono se encontram em posição de antípodas.
Mas também há outras que não estando preparadas para dar o salto dessa roda desenvolvem uma estranha forma de autismo que lhes permite anuir a todos os rituais da civilização passando no entanto despercebidos. Não é fácil já que têm de ter sempre pronta uma resposta ou um reflexo apropriado.
Há por fim os terceiros, aqueles que saltam da roda assim que podem, tornando-se por conta em risco nos chamados artistas alienados.
Voltando ao Javier, ele sabia que não havia forma de resolver essa sua alienação sem romper em definitivo as escoras daquele chão. E foi o que ele fez num belo dia depois de uma conversa sobre os pampilhos [15].
Tuesday, 7 July 2009
[30] Mais declarações do pássaro que passou
"Daqui vejo que o espaço é curvo e aquela miúda a quem vocês chamam de Manu está no meio de vós, porém diferente, fruto de qualquer fatalidade que a matemática aliada ao raciocínio vos poderá ajudar a compreender."
(Pássaro)
Naquele torpor hedonista, bem no fundo da cabeça, pareceu a Javier ouvir uma voz distante com noticias de Manu. Mas tal voz tornou-se tão insignificante quanto o tamanho da Manu naquela altura.
Saturday, 20 June 2009
[29] La Dance
"Quem dera que aqui estivesse o darrel bubb!" suspirou catarina, "afinal nem era mau diabo!"
"Agora não adianta lamentares-te. E por esta altura já deve ter atingido o exterior e estará por certo a contar a sua história em algum pub", falou o cigano.
"Pois é!", interrompeu o javier, "e estará a esfregar na cara dos velhos do sopé da montanha [4] a sua proeza, já que eles nos agouraram que quem aqui entrasse nunca mais sairia..."
"Pois. Nós estamos perdidos para sempre mas talvez os dentes de ouro do cigano se safem"
A gargalhada foi geral e a apoteose continuou.
Vieram os seres alados, vultos esvoaçantes que se aproximavam em círculos convergindo para os visitantes. Numa revolução de movimento, roçando as asas macias nas caras dos humanos dançaram e todos rebolaram por ali. Foi o dia em que o céu, ou melhor, um céu finalmente apareceu acima das suas cabeças, um céu que continha os tais seres esvoaçantes - os anjos do mundo interior.
Monday, 18 May 2009
Thursday, 7 May 2009
[28] Aposta na apoteose / hierarchy

Uau!
Todos ficaram impressionados com o que se deparava à sua frente. Depois de tantos dias enfiados em catacumbas sombrias que se dividiam sempre em duas e habitadas por misteriosos répteis, depararam-se com um cenário digno de Júlio Verne. Era uma extensa alameda preenchida por estranhas árvores plantadas aqui e ali, pendendo formas que seriam os respectivos frutos. Talvez devido às características reflectoras das paredes naquela zona do túnel ou por outro qualquer fenómeno desconhecido, tudo aparecia estranhamente iluminado, como que por uma espécie de luar escondido e difuso.
Catarina e Javier correram para uma daquelas plantas. Dos pendentes frutos arrancaram um.
Somos sempre levados a pensar que o que pende de uma planta é um fruto e na maior parte das vezes assumimos que é para comer. Legado este ainda da velha mas rija teoria criacionista, convencermo-nos de que o mundo com toda a sua imensa quantidade de seres, incluindo até as suas infindáveis profundezas, foi obra desenhada e concebida para deleite de adão, esse auge da criação, figura pálida e arrogante com um pénis no centro do corpo. É no meio que está a virtude e no meio do tudo se sente também esta derradeira criatura quando olha à sua volta, mesmo estrapolando os limites conhecidos pelas instituições do conhecimento vigente. Pois bem, o instinto de agarrar e comer já é antigo e está justificado e estes espécimes da derradeira criação estão à beira de sentir o aroma do tal fruto da tal planta.
"Cheira bem!"
"Pode até cheirar a terra como tudo o que temos vindo a cheirar neste buraco que mesmo assim eu tratarei de preparar qualquer coisa com isto"
Comeram que se fartaram, cairam para o lado como quem chega finalmente ao fim da viajem.
"Meeeestre! É muito bom estarmos aqui. Façamos três tendas: uma para ti, uma para moisés e outra para elias." Quem falou nestes estranhos termos foi um elemento da equipa que aqui ainda não foi referido. Sabemos até agora que a equipa dos túneis se compõe pelo cigano, javier, catarina, darrel bubb que está lá atrás a congeminar um plano de reencontro, a manu que assumiu a fuga para a frente há alguns episódios atrás e mais alguém que os acompanha. Não vou, pelo menos para já, anunciar o nome deste indivíduo. Chamemos-lhe apenas o moço das tendas que para já é suficiente.
Enquanto assim falava, surgiu uma nuvem que os envolveu aterrorizando-os. Viram estranhos seres a esvoaçar pelas paredes junto à núvem.
Monday, 20 April 2009
[27] Sabor de vitória com fracasso

Sentou-se no chão ao lado do bicho morto, puxou de novo do seu bloco de notas e rabiscou durante meia hora. Depois levantou-se, pegou numa faca e começou a esfolar a criatura rastejante, retirando-lhe aquela pele áspera de lagarto das cavernas.
Uma hora volvida, com aquela pele inteira de crocodilo aos ombros, Darrel Bubb disse para si mesmo "Tenho de ir ter com eles para lhes contar o segredo das cavernas" e, mais uma vez decidiu voltar para trás, agora e de novo no sentido do interior das profundos túneis.
Thursday, 9 April 2009
[26] Darrel Bubb, 4 lanços atrás
"A não ser que..." Algum fantasma das suas teorias o assolou de novo. Puxou do seu caderno de anotações e de um lápis, reveu as anotações feitas durante as discussões com os seus colegas. Olhou para as notas durante cinco minutos e o seu caderno voltou para a mochila.
Mal tinha começado a andar de novo quando ouviu um estranho e ritmado tremor na galeria. Não estava sozinho de certeza. Não seriam os ex-colegas porque o som vinha do outro extremo da gruta. Aproximava-se.
"Não pode...!" Apareceu-lhe à frente "...uma besta infernal."
"Será este o porco dos túneis?"
Mas não. Aqueles pequenos seres rastejantes que os exploradores encontravam pelo caminho, servindo de repasto, carne fresca grelhada à moda da Catarina, guisada à la Cigano mais a cataplana do Javier, eram agora criaturas com um metro de tamanho. Darrel Budd conseguia até ouvir-lhes o arfar langonhento.
Teve de disparar três tiros para matar o animal.
Tuesday, 10 March 2009
[25] Recicladores por convicção
O caso das pessoas que consomem e vivem do lixo urbano não é novo, remonta talvez às primeiras grandes manifestações da sociedade capitalista. Não é de esperar encontrá-la em cidades pouco desenvolvidas.
Este tipo de casos passa-se por exemplo em plena urbe parisiense. Devido ao poder de compra desta sociedade e à subsequente facilidade de alienação dos seus haveres e dos pequenos utilitários domésticos, verifica-se sistematicamente a coexistência de certas pessoas com esse lixo. Além de o reutilizarem, estas pessoas comem algum e requalificam o outro. Pode o leitor achar nauseabundo este comportamento mas, na verdade, o comum mortal da urbe desenvolvida deita fora diariamente alimentos ainda frescos - o frigorífico já está cheio. Outro garante bastante comum, talvez o mais importante, é o lixo resultante de superfícies comerciais como supermercados e hipermercados – nestes obtém-se grandes quantidades de frutas e legumes que não apresentando os índices mínimos de qualidade para estarem numa prateleira, são ainda comestíveis bastando apenas remover a parte imprópria.
Maioritariamente, este procedimento é praticado por mendigos e pelos sem-abrigo mas existem também pessoas com emprego e ordenados razoáveis a praticar estes métodos. Fazem-no porque é economicamente aliciante, encaram-no como um desafio, com uma postura irreverente, moderna e irónica perante a sociedade. É nestes últimos que vamos encontrar Javier, ao fim de uns dois anos de carreira em Paris.
Monday, 2 March 2009
Zara Corpse
Friday, 27 February 2009
[24] As osgas da Catarina
- E os megapódios à moda do cigano? Aqueles que chiam atrás das pedras redondas?
- Bem. Ainda bem que nos aparecem estas criaturas para comermos alguma coisa fresca. Se bem que ultimamente me tenho sentido meio batido.
- É! Se calhar estes bichos que apanhamos no caminho contêm substâncias alucinogénicas. Mas deixa lá - ao menos ajuda a passar o tempo...
- Javier! Tu não dizes nada? E tu Cigano, quando é que saímos deste buraco? Que bela aventura esta onde nos meteste... nem ouro, nem revelações nem coca-cola.
- Não fui eu que vos convidei. Vocês é que quiseram vir. No que me toca, estou a fazer o meu caminho. Quanto a vocês, é estranho estarem aqui. Porque é que aqui estão?
O silêncio tomou de novo as grutas por breves segundos. Se se deveu à estupefacção dos presentes por se ter finalmente ouvido o Cigano a falar ou se por causa do atrevimento da pergunta ninguém o saberá por certo. A verdadeira razão pertence a cada um. O Cigano continuou:
- Meus caros. A razão de aqui estarem deve-se ao facto de nunca terem a coragem para decidirem os vossos destinos. Eu decidi por mim e vocês, normais consumidores de ideias preconcebidas, viram-se perante o pânico de ter de escolher um de dois caminhos a frio. Seguiram pelo caminho mais fácil que é o de assumir como vossa a escolha de alguém. Meus caros, lá fora, a sociedade insiste em aliviar-vos desse fardo que é ter de decidir as vossas vidas. Por isso, fazem-vos crer que o que eles têm para vos dar é o que vocês precisam.
- Eu estou aqui porque quis!








