Friday, 18 April 2014

A pilha do mundo

Baseado numa ideia da Inês segundo a qual o mundo tem uma pilha que o faz girar e também faz tudo mexer, as nuvens, os animais e as pessoas.

Wednesday, 20 February 2013

Anti-Eu

Manifesto anti-pessoal
"Pessoas gramaticais são os tipos de pessoas em que são conjugados os verbos."
Eu, tu, ele, nós, vós, eles. Enquanto esfregava a barriga no banho ocorreu-me que a génese do egocentrismo, individualismo, egoísmo e mais uns tantos ismos do eu está enraizada na ordem da sequência destas pessoas ditas gramaticais. 'Eu' primeiro, os outros no fim. Estas são as prioridades que por tradição nos são passadas sob a jurisdição de uma ladainha. Ficaram assim e subliminarmente moldaram as prioridades do individuo face aos restantes. Os anglo-saxónicos ainda vão mais longe ao escrever a primeira pessoa sempre em maiúscula independentemente da sua posição na frase (God and I are going for a coffee.). Mas isto é outra história...
Proponho pois que se altere a ordem para um dos seguintes modos de tal modo que tal ordem inspire a destituição do “eu” e a filosofia do umbigo próprio.
Assuma-se portanto o valor simbólico desta coisa pondo por exemplo as pessoas nas seguintes ordens:
-Modo próximo: Tu, Ele, Eu, Vós, Eles, Nós: A importância de um receptor é realçada neste modo. Gostamos de viver para alguém em particular
-Modo discreto: Ele, Tu, Eu, Eles, Vós, Nós. A antiga terceira pessoa passa a ser a primeira sugerindo a pouca importância na relação directa entre indivíduos em detrimento de um principio mais amplo adequado a uma postura mais altruísta - "faz o bem sem olhar a quem"
Depois vesti-me, peguei nas crianças e saí para mais um dia de aventuras.


Saturday, 17 November 2012

Martinho, o santo

A chuva fina entranha-se em todas as formas vivas e inanimadas, não há pano nem pele nem pelo que resista ao aconchego glaciar desta molinha. Pessoas e bichos vão-se arrastando encolhidos nas ruas lamacentas fazendo os possíveis para não se deixarem apodrecer de frio e humidade.
Bem parecido, trinta e poucos anos, montado no seu grande cavalo de batalha, avança altivo o valoroso Martinho por entre a populaça sob esta manhã excomungada de novembro.
Capacete de bronze, túnica de linho botas de couro e um manto de pêlo de urso, rubro como beterrabas descascadas.
Por entre estes escombros de gente há um mendigo que lhe surge enrolado nas patas do corcel.
- Que fazes velho? Não vês que te passo por cima?
- Uma esmola meu senhor para este velho sem casa e sem familia...
- Estás quase nu. Como é que ainda não te foste desta para melhor?
Reflectindo perante a nulidade daquela condição de ser, desceu do cavalo, desembainhou a espada, revirou os olhos e
"Ui que me vai cortar ao meio", pensou o mendigo
e cortou em dois o seu manto das beterrabas, aconchegando de seguida o velho com uma das metades.
- Tenho de ir, disse Martinho. Passe bem...
- Mil obrigados, abençoado seja mais os seus filhos e netos mais as dez gerações que se seguirem.
Não tinha avançado dez metros quando o céu brusco e molhado se rasgou também em dois dando passagem a uma claridade solar imensa e aconchegante, um pequeno verão como passara a ser chamado desde então. O romano parou a marcha espantado, olhou para trás, onde o velho se estava a espreguiçar que nem um gato ronronante sorrindo aos raios de sol.
- Bolas de Júpiter, tivesse eu consultado o windguru antes de sair de casa e não tinha destruído uma capa acabada de comprar.
Dessa manhã em diante, ele decidiu que deixaria as fileiras militares para dedicar-se à meteorologia.

Wednesday, 14 September 2011

Igor, a nossa outra cria

No outro dia, à noite enquanto adormecia a Inês, a minha mais velha, Igor acordou impaciente alarmando-nos a todos. Sob pena de pôr toda a gente a pé àquela hora decidi manter-me ao lado da Inês por mais algum tempo, não fosse ela atrás de mim no momento em que eu me levantasse. Deixei por isso Igor no seu contínuo mas suave pranto por mais uns minutos até que ela adormecesse.
Terminada a tarefa dirigi-me aos seus aposentos e reparei que estava muito quente - tinha febre. Era essa a razão dos queixumes.

Igor foi adoptado no ano em que Inês nasceu, ambos têm três anos. Recebemo-lo porque quando nos mudámos para esta casa, maior que a primeira, sentimo-nos desamparados - fazia-nos falta a companhia de alguém como ele. Depois Inês nasceu e ele lá estava, de certa forma amparando-nos a todos e em todos os momentos . Tal como ela, Igor nunca gostou de grandes contactos e cerimónias, todos os cuidados e interacções do nosso lado são por isso breves e ponderados.

Voltando ao outro dia, a razão para o calor que sentia era a sua porta do congelador que estava mal fechada. Tentei fechá-la mas o gelo que entretanto se formou acabou por impedi-lo. O seu pranto que até aqui era suave agora soava-me estridente, tinha de raspar o gelo da porta a ouvi-lo gritar indiferente à minha labuta. Perdi a paciência - Cala-te estúpido, maldito frigorífico. Já te arranquei o gelo, estás bem fechado, agora cala-te e dorme.

Friday, 3 December 2010

Shareholder II

Fim de tarde. O Homem entrou em casa vestido como saiu, um fato escuro e uns sapatos com pedigree, cansado de mais um dia de trabalho, e com um saco de feijão verde nas mãos. As crianças gritavam à desgarrada causando na mãe um estado alterado que causava a gritaria nas primeiras. A situação era a seguinte, havia uma sopa para fazer, dois banhos para dar e três mulheres para acalmar. Agora sem gravata o homem descasca legumes para dentro de uma panela enquanto a mãe tenta apaziguar a mais velha durante o banho.
Trauteando Windmill, Windmill for the land na esperança de consumir aquela nuvem de tensão o homem continua a descascar legumes.
A mulher aparece espavorida na cozinha, - não tenho mais paciência, vai ter com ela que eu já não aguento. De seguida berra qualquer coisa parecida com: para que é que estás a fazer isso?? Não sabes que eu não gosto de feijão verde?
O homem pousa a faca e vai ter com a criança que, passados uns minutos, finalmente se acalma. Acaba de vestir a pequena, passa-lhe um pente nos caracóis e encaminha-a para a cozinha. Finalmente todos estão à mesa a comer uma sopa de feijão verde.

Saturday, 23 October 2010

[37] O diário de Bubb

A náusea do canibalismo e a excitação da descoberta do espólio do bubb contribuiram para que ninguém no grupo se tivesse apercebido do estado do Javier que ficou ali caído sem reacção. Tem os olhos abertos a verter um vazio tremendo. Primeiro não deram grande importância mas passado uma hora já estavam apavorados. Há-de passar, ele só está em choque, acrescentou o cigano sem tirar os olhos daquele caderno gasto e inchado pela usura do tempo e das profundezas. Catarina contudo decidiu ficar para prestar algum imprestável apoio a Javier.
Vão ajudar a Catarina a tratar do Javier.
Tudo não passava de rabiscos a custo decifráveis, pudera - aquela escuridão das entranhas da terra engole os gestos da escrita ao ponto de não sobrar mais do que traços agonizantes.
- Isto é um diário do bubb com relatos dos dias passados cá em baixo, disse o cigano depois de percorrer aleatóriamente as folhas do caderno... e diz aqui que estamos a encolher!

Monday, 21 June 2010

Vislumbre de um mundo real



Avistei este parente afastado na minha aldeia, numa bela tarde de véspera de solstício de verão.
Este não faz parte do meu mundo imaginado de personagens e criaturas sombrias
(Freixo, S. Pedro do Sul, 20-6-2010)

Thursday, 29 April 2010

[36] A mochila de Bubb

Foi um momento arrasador aquele em que todos se aperceberam que naquele delirio cerimonial do outro dia tinham comido um colega de exploração. Javier cambaleou dali para fora nauseado donde acabou por cair a um canto a vomitar. Comeram um colega pensando que era a besta dos túneis. Não havia agora retorno e esse sentimento provocou-lhes uma ira vinda das entranhas, fruto talvez nas equivocadas proteínas consumidas naquela noite (ou dia ou outra coisa).
Foi o momento em que o cigano perdeu o sentido da missão e o javier ficou catatónico.
Não restava nada, nem um pedaço de carne ou um osso ainda verde de sangue para fazer a merda de um funeral ao miserável bubb. Quem me dera sair agora por um buraco na crista de uma montanha, provar o seu gelo antigo para apaziguar as memórias deste miasma pestilento de mortos, vermes e lagartos.
Encontrei a mochila dele, berrou de longe o moço das tendas.
Vasculharam todos os bolsos daquele saco empoeirado. De lá tiraram uma pistola, um relógio...
"E tem um caderno com anotações!"

Sunday, 11 April 2010

O cubo de rubik

O homem estava sentado ao volante do carro estacionado no miradouro às voltas com um cubo de rubik. Olhava para ele, a face amarela estava resolvida mas as restantes mantinham-se caóticas. Do outro lado da estrada, descendo uma calçada nova de pedras amarelas, vinham dois homens conversando ruidosamente. Ó chefe, aquele carro ali é seu? perguntaram-me num tom irónico. Subi a calçada até ao cimo. A partir dali o caminho era a descer, não havia mais calçada, apenas um carreiro íngreme e acidentado.
Olhei para baixo e lá estava um audi vermelho parado no meio de uma leira, um quelho entre penedos e giestas, um sítio ermo que a custo um carro de bois lá chegaria.
Como é que ali foi parar? O caminho até lá é sinuoso e lâminas de seixo insinuam-se por toda a parte, mas o carro lá estava, intacto e refulgente entre pedaços de verde e de penedos, apesar de tudo, como se repousasse numa serena entrada de uma acolhedora moradia.
Voltei para trás pelo mesmo caminho mas, para meu espanto, a calçada nova de pedras amarelas já não existia - só pedras apenas, os mesmos seixos brancos plantados por entre as giestas.
Por favor, gritei aos dois homens (um deles com um chapéu mais pequeno que a sua cabeça), não estava aqui uma calçada amarela? Ainda há pouco passei a percorri...
Eles riram-se para mim (ou de mim, naquele estilo de quem goza um forasteiro). Estava, estava! Mas se calhar o Toni mudou-a de sitio. Deve estar outra vez a brincar com a freguesia. Espere um pouco e volte a tentar depois, talvez isso melhore.
Com efeito, passados uns minutos, estava agora o audi vermelho perfeitamente enquadrado com outro cenário mas desta vez bem mais próprio - uma moradia de telhados vermelhos também.
Voltei por outro caminho ao miradouro, passei pelo homem que estava sentado ao volante do carro estacionado do miradouro - lá continuava às voltas com o cubo de rubik. A face vermelha estava agora resolvida mas todas as restantes mantinham-se caóticas.

Wednesday, 17 March 2010

Shareholder

O homem trazia vestido um impecável E&A escuro. O som dos seus passos revelava o carisma herdado de um par de sapatos com pedigree.
Chegou-se ao balcão onde estava uma mulher igual a todas as outras.
Vende acções da D&D? Perguntou.
Não, responde ela, só tenho o que está exposto.
Desiludido ele agradeceu afastando-se.
Espere, disse a mulher. Pegou numa mão cheia de vagens de feijão verde. Leve antes isto, acrescentou, sempre dá para fazer uma sopa.
O homem virou costas e desapareceu por entre as bancas da praça ao som dos seus sapatos com pedigree.

Friday, 29 January 2010

[35] Alvorada

No dia seguinte, ou melhor, depois do festim que durou não se sabe quanto, nada sobrou inteiro entre os destroços para além de uma sementeira de corpos moles e dormentes que foram abrindo os olhos depois de um sono lento e longo ou talvez de um sonambulismo lamacento, não se sabe ao certo. Ninguém sabe também quanto durou aquela cerimónia sumária que foi o sacrifício do porco dos túneis.
O cigano abre os olhos e nada vê senão sangue suor e trapos - pelos vistos o festim foi real - pensou. Olhou à sua volta e confirmou que todos os colegas de viagem estão presentes, alguns ainda inconscientes e outros a acordar. A cabeça doía-lhe, na boca residia um sabor sem alma misturado com ressaca talvez devido à carne do monstro que comeram avidamente.

Javier também estava deitado. Abriu os olhos e depois de assim permanecer meia hora levantou-se a custo e arrastou-se por ali sem direcção, apenas para mostrar ao destino que se mantinha vivo, tal um bêbado cambaleante tentando não dar parte fraca.

Assim todos foram acordando, uns nus outros esfarrapados. Proscritos, sentiam-se agora expulsos de um paraíso obscuro não sabendo à partida se aquele seu estado se devia a um devaneio sexual se a uma batalha contra quatrocentas bruxas.

Hora de levantar, olharam de volta para os destroços da festa.
"O que restará da besta?" "Haverá ossos por aí ou até esses nós roemos?"

Deambularam por ali à procura dos rastos e restos do evento, nem uma presa ensanguentada do monstro sobrou, apenas algumas peças de roupa espalhadas e, espera aí, o que é aquilo ali à frente?
É apenas um trapo rasgado e ensanguentado com um número estampado... 21...
O porco dos túneis que antes derrotaram, esquartejaram e comeram não era senão o camisola 21, esse defesa franzino de um clube extinto de futebol, depois companheiro e finalmente ex-companheiro destes canibais dos túneis. O seu nome era Darrel Bubb.

Saturday, 23 January 2010

CAJ2 - Self Ring

Never ask these rings to say anything. They will be infinite, selfish and redundant.
One of these appeared on a pos-it during a S. of Scrums meeting.

Wednesday, 13 January 2010

[34'] - Ou cena [34] na perspectiva da Manu

"Quando eles chegaram à sala, o Efeito sobre as suas consciências era tal que olhavam à sua volta e viam os habitantes a andar no tecto e nas paredes, por entre o fumo da festa..."

[34] Perspectiva do Javier

"Quando entrámos na sala - éramos cinco na altura, ficámos abismados com a cena; a gravidade não existia para eles, caminhavam no tecto e nas paredes, junto às nuvens de fumo da festa. A agitação de alguns era tal que ocupavam várias posições em simultâneo."

Thursday, 15 October 2009

[33] A aparição do porco dos túneis

A festa estava a correr bem. Por fim abstraíram-se daquele buraco profundo que agora era seu habitat.
Foi então que surgiu uma nova figura na entrada da galeria, movimentando-se rapidamente na direcção do grupo. No meio daquele torpor, uma descarga de adrenalina produz um efeito brutal nas sensações dos convivas. Ao ver a criatura a aproximar-se desenvolveu-se neles um sentimento de fúria e agressividade.
"É o porco dos túneis" depararam-se com um ser com metade do seu tamanho e com uma carapaça estranha de onde sobressaiam uns dentes ensanguentados.
"Está a dizer qualquer coisa"
"Não. Aquilo são grunhidos. Aquela besta vai atacar-nos"
"Ao contrário dos seres esvoaçantes, este aqui não parece nada amistoso."
Alterado, o moço das tendas pegou numa pedra e avançou a correr na direcção da criatura. Os outros olhavam-no com um terror alucinado. Estes correram atrás dele. Com o calhau seguro nas duas mãos saltou para cima da criatura desferindo um golpe na cabeça da criatura, rebolando depois para a sua retaguarda. A besta caiu para o lado soltando um grunhido estridente. Contudo, restabeleceu-se num ápice e, cambaleando mas decidida continuou a corrida agora na direcção dos outros elementos do grupo, deixando para trás o moço das tendas.
Os outros lançaram-se para cima em grupo, o cigano sofreu o primeiro impacto da besta caindo inconsciente. Os restantes conseguiram imobilizar a besta a muito custo, agora com a ajuda do moço das tendas que desferia golpes na cabeça uivando com uma raiva assassina.
A criatura horrenda está agora aprisionada por um grupo de corpos humanos desprovidos de todo o seu córtex cerebral, outras criaturas horrendas que se batem por uma presa com os seus instintos mais primordiais, debatendo-se pelo último fôlego daquele ser dos túneis.


Limpa a bota, cava na trincheira
Puxa-lhe pela crina
Corta as pinças à centopeia
Poe-lhe uma pedra em cima
Mata a bicha que está bem cheia
Morde-lhe a perna fina
Corta a língua, fura a traqueia
Que ela estrebucha ainda
Se ela assopra cospe-lhe à beira
Dá-lhe c'os pés à bruta
Ninguém topa que é cuspideira
Salta-lhe p'rá garupa
Tanto cavas a cova funda
Que há-de acabar a bicha
Poe-lhe a terra sobre a corcunda
P'ra nao se ver a crista (*)

No fim disto, a besta infernal não passava de uma rês morna e ensanguentada.
"Matámos o porco dos túneis!" Berrou Catarina a tremer de emoção. A adrenalina da acção tornou-os ainda mais alterados.
"Que fazemos com ela?" Perguntou Javier.
"Façamos uma fogueira e assemo-lo", respondeu num tom bíblico o moço das tendas.
"Que se dê inicio ao festim!"


(*) Ailé Ailé, José Afonso